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Natal em tempos de Herodes

20/12/2016

O Natal deste ano será diferente de outros natais. Geralmente é a festa da confraternização das famílias. Para os cristão é a celebração da divina Criança que veio para assumir nossa humanidade e faze-la melhor.

No contexto atual, porém, em seu lugar assomou a figura do terrível Herodes. o Grande (73 a.C-4-a. C), ligado à matança de inocentes. Zeloso por seu poder, ouviu que nascera em seu reino, a Judéia, um menino-rei. Foi quando ordenou degolar todas os meninos abaixo de dois anos (Mt 2,16). Ouviu-se então uma das palavras mais dolentes de toda Bíblia:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada, porque eles já não existem”(Mt 2,18).

Essa história do assassinato de inocentes continua de outra forma. As políticas ultracapitalistas impostas pelo atual governo, tirando direitos, diminuindo salários, cortando benefícios sociais básicos como saúde, educação, segurança, aposentadorias e congelando por 20 anos as possibilidades de desenvolvimento têm como consequência uma perversa e lenta matança de inocentes da grande maioria pobre de nosso país.

Aos legisladores não são desconhecidas as consequências letais, derivadas da decisão de considar mais importante o mercado que as pessoas.

Dentro de poucos anos, teremos uma classe de super-ricos (hoje são 71.440 segundo IPEA, portanto,0,05% da população),uma classe media amedrontada pelo risco de perder seu status e milhões de pobres e párias que da pobreza passaram para miséria. Esta significa fome das crianças que morrem por sub-nutrição e doenças absolutamente evitáveis, idosos que já não conseguem seus remédios e o acesso à saúde pública, condenados a morrer antes do tempo. Essa matança possui responsáveis. Boa parte dos legisladores atuais da chamada “PEC da morte” não podem se eximir da pecha de serem os atuais Herodes do povo brasileiro.

As elites do dinheiro e do privilégio conseguiram voltar. Apoiados por parlamentares corruptos, de costas ao povo e moucos ao clamor das ruas e por uma coligação de forças que envolve juizes justiceiros, o Ministério Público, a Polícia Militar e parte do Judiciário e da mídia corporativa, reacionária e golpista não sem o respaldo da potência imperial interessada em nossas riquezas, forjaram a demisão da Presidenta Rousseff. O real motor do golpe é o capital financeiro, os bancos e os rentistas (não afetados pelas políticas dos ajustes fiscais).

Com razão denuncia o cientista politico Jessé Souza: “O Brasil é palco de uma disputa entre dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia. A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder “comprar” todas as outras elites”(FSP 16/4/2016).

A tristeza é constatar que todo esse processo de expoliação é consequência da velha políitca de conciliação dos donos do dinheiro entre si e com os governos, que vem desde o tempo da Colônia e da Independência. Lula-Dilma não conseguiram ou não souberam superar a arte finória desta minoria dominante que, a pretexto da governabilidade, busca a conciliação entre si e com os governantes, concedendo alguns benefícios ao povo a preço de manter intocada a natureza de seu processo de acumulação de riqueza em altíssimos níveis.

O historiador José Honório Rodrigues que estudou a fundo a conciliação de classe sempre de costas ao povo, afirma com razão:”a liderança nacional, em suas sucessivas gerações, foi sempre anti-reformista, elitista e personalista…A arte de furtar é nobre e antiga praticada por essas minorias e não pelo povo. O povo não rouba, é roubado…O povo é cordial, a oligarquia é cruel e sem piedade…; o grande sucesso da história do Brasil é o seu povo e grande decepção é a sua liderança”(Conciliação e Reforma no Brasil, 1965, pp. 114;119).

Estamos vivendo a repetição desta maléfica tradição, da qual jamais nos liberaremos sem o fortalecimento de um anti-poder, vindo do andar de baixo, capaz de derrubar esta clique perversa e instaurar um outro tipo de Estado, com outro tipo de política republicana, onde o bem comum se sobrepõe ao bem particular e corporativo.

O Natal deste ano é um Natal sob o signo de Herodes. Não obstante, cremos que a divina Criança é o Messias libertador e a Estrela é generosa para nos mostrar melhores caminhos.

Leonardo Boff escreveu: Natal: o sol da esperança, Mar de Ideias, Rio 2007.

 

 

 

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25 Comentários leave one →
  1. Amaurih permalink
    21/12/2016 6:57

    O PT não tomou nenhuma atitude no sentido de equilibrar as contas, para não colocar em risco as crianças? Ou por populismo puro e simples enquanto se locupletava das riquezas das estatais e dos fundos de pensão… De maneira tão inconsequente e sem noção de que isso que está por acontecer é causa das atitudes equivocadas visando favorecer o partido… O senhor me envergonha ao distorcer a história e ao usar seu conhecimento para distorcer a ponto de qualificar as atitudes como de “ultracapitalista”, isso é coisa de subcomunismo, de subsocialismo, e assim como essas ideologias, é impraticável, só vale para a propaganda dos delírios da esquerda.

    • 22/12/2016 18:02

      Vc ofende qualquer inteligecia minimamente lúcida. Não respondo à falsificação, especialmente, de intenções. Vá aprender a ter um pouco de ética e depois se habilite a dialogar. É melhor vc não me seguir para não estragar o seu fígado. lboff

  2. adenir permalink
    21/12/2016 6:59

    NATAL ENTRE ANIMAIS
    O som do leão da tribo de judá ecoou na estrebaria de Belém. Animais, insetos, os
    seres aquáticos e terrestres foram focalidos pela Estrela que orientava os Magos.
    Animais, insetos e seres aquáticos estão em maioria no planeta terra. Sob os cuida-
    dos de Deus e dos homens eles nos fazem companhia desde o começo do mundo.
    As violências e hostilidades atingem todos os seres da terra. PAZ NA TERRA é
    necessidade vital e de DIREITOS INALIENÁVEIS para todos. Justos e injustos porque Deus não é injusto e no seu tempo e pensamento agirá no futuro que lhe pertence.
    Asas vão e voltam. Balas perdidas vão e voltam no eterno retorno de todas as coisas. Conspirações e juízos terão as mesmas medidas que o pão lançado sobre as águas
    que contornam montanhas, vales e espaços, mas retornam aos justos e injustos.
    Coisas que dão alegria, mas que também fazem sofrer até o dia onde não haverá
    mais lágrimas. Abraços e bom fim de 2016. adenir

  3. Jose Francisco Medeiros permalink
    21/12/2016 8:18

    ________________________________

  4. revrogerio permalink
    21/12/2016 9:51

    Querido Frei Leonardo,
    Sei que é bastante ocupado e pode ser então que não leia minha participação, mas te faço um apelo: por favor, para de defende o PT. Sabemos que o Brasil está afundado na lama não só por esse bando e sim por por outros bandos também, mas você mesmo fez esses dias um apelo ao pt com letras minúsculas para que voltem às suas origens. O discurso que deram um golpe, etc e tal realmente não é mais tolerável.
    Parabéns por mais esse texto no que tange aos Herodes de hoje, sim, o senhor tem toda razão. E entre eles com certeza absoluta tem uma multidão de petistas pregando definitivamente o que não vivem.
    Feliz Natal e abençoado ano novo.
    Rev. Rogério (presbítero anglicano).

    • 22/12/2016 17:59

      revrogerio
      Vc está se equivcado. Eu nunca defendi o PT como partido,mas a causa que ele representa: fazer políticas sociais aos pobres ao ponto de incluir 40 milhões. Quem fez isso na história do Brasil? Esse legado não pode perder-de porque houve corrupção na cúpula. Seria abandonar os pobres para salvar o partido. Qualquer partido, que seja até o DEM que é dos ricos que defenda e beneficie as grandes maiorias pobres desse pais tem meu apoio. Admiro-me que cristãos não tenham essa atitude que era de Jesus.
      lboff

      • revrogerio permalink
        22/12/2016 18:27

        Agradeço a sua resposta. Concordo plenamente contigo que qualquer partido que governe para si, ao invés de governar para o povo não seja digno de apoio, seja ele de direita ou de esquerda. A classe política de modo geral está desgastada, o povo está cansado e não tolera mais tanta demagogia e tanta roubalheira. Vejamos o exemplo das eleições nos Estados Unidos. Sabe Deus o que o futuro nos espera. Vejamos as eleições aqui em São Paulo. Quem venceu? Um empresário milionário, assim como Trump. Ninguém quer políticos no poder. Penso que as urnas deram este recado. Se foi uma decisão acertada o tempo dirá. Mas pelo que tenho acompanhado como uma pessoa esclarecida que sou, o PT nunca perdeu tanto campo partidário em toda a sua história. Não digo que todos sejam corruptos, mas penso que a maioria. A democracia está de parabéns!

      • 26/12/2016 10:39

        Frei , respeito muito o Sr e li muitos dos seus livros espirituais , mas parece haver duas pessoas habitando o seu ser , uma espiritual e lúcida , outra limitada e sujeita às armadilhas do mundo do discurso . A verdade , relativa que seja , está por trás dos discursos e o Sr nega e briga com fatos e realidades, a ponto de ser conivente com um ditador sanguinário até . Desculpe expressar a minha decepção por um ser espiritual ter uma cisão tão limitada e sujeita a mecanismos de revolta .

      • 26/12/2016 22:31

        Paulo, essa cisão está em sua cabeça e não na minha vidal. Vc é refém da mídia conservadora e mentirosa que vive ocultando a realidade. Seja um pouco crítico para ser livre e ter melhor juizo sobre as coisas.

  5. 21/12/2016 10:19

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Compartilhando do Leonardo Boff​: “O Natal deste ano será diferente de outros natais. Geralmente é a festa da confraternização das famílias. Para os cristão é a celebração da divina Criança que veio para assumir nossa humanidade e faze-la melhor.

    No contexto atual, porém, em seu lugar assomou a figura do terrível Herodes. o Grande (73 a.C-4-a. C), ligado à matança de inocentes. Zeloso por seu poder, ouviu que nascera em seu reino, a Judeia, um menino-rei. Foi quando ordenou degolar todas os meninos abaixo de dois anos (Mt 2,16). Ouviu-se então uma das palavras mais dolentes de toda Bíblia:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada, porque eles já não existem”(Mt 2,18).

    Essa história do assassinato de inocentes continua de outra forma. As políticas ultracapitalistas impostas pelo atual governo, tirando direitos, diminuindo salários, cortando benefícios sociais básicos como saúde, educação, segurança, aposentadorias e congelando por 20 anos as possibilidades de desenvolvimento têm como consequência uma perversa e lenta matança de inocentes da grande maioria pobre de nosso país.

    Aos legisladores não são desconhecidas as consequências letais, derivadas da decisão de considerar mais importante o mercado que as pessoas.

    Dentro de poucos anos, teremos uma classe de super-ricos (hoje são 71.440 segundo IPEA, portanto,0,05% da população),uma classe media amedrontada pelo risco de perder seu status e milhões de pobres e párias que da pobreza passaram para miséria. Esta significa fome das crianças que morrem por sub-nutrição e doenças absolutamente evitáveis, idosos que já não conseguem seus remédios e o acesso à saúde pública, condenados a morrer antes do tempo. Essa matança possui responsáveis. Boa parte dos legisladores atuais da chamada “PEC da morte” não podem se eximir da pecha de serem os atuais Herodes do povo brasileiro.” (continua, clique no link para ler o texto todo)

  6. leoc4dio permalink
    21/12/2016 15:22

    reconciliemo-nos com a verdadeira Estrela; a do Menino Milagroso, portador da misericordia do Pai. outras estrelas eram somente lampejos cuja fonte jaz e ofuscou-nos. paz e bem!

  7. 21/12/2016 19:31

    Republicou isso em Não ao Golpe2.

  8. Isabel da Fontoura Pinho permalink
    23/12/2016 15:51

    Importante seu texto, esclarecedor , nós , brasileiros, precisamos abrir os olhos para o que está acontecendo .Um abraço, Isabel

  9. Edgar Rocha permalink
    24/12/2016 4:11

    Sr. Leonardo. Sei que este é um momento sagrado para muitos, independentemente de sua linhagem ideológica ou sua profissão de fé, dentro deste enorme mosaico (!) chamado cristianismo. Li seu texto e endosso cada palavra tua no que diz respeito à crítica social inspirada pelo Natal e sua narrativa no Novo Testamento.
    Mas, leio também os comentários e, a despeito dos rompantes biliares evidentes nas palavras de alguns, creio que a indignação enquanto dado emocional é legítima, sobretudo quando tenta-se esboçar um forte sentimento de traição gerado pelos fatos – ou pela lavagem cerebral para os quais estes são instrumentalizados – num esforço crítico muitas vezes equivocado. Enquanto leitor assíduo de seus textos, sou testemunha de que o senhor nunca se eximiu das críticas pesadas as quais o PT, a esquerda e, sobretudo alguns indivíduos em especial, mereceram receber devido a atitudes que, senão foram criminosas, são inexoravelmente anti-éticas e contraditórias em relação ao discurso e às promessas de campanha. Queria lembrar aos outros comentaristas de suas posições quanto ao abandono da questão indígena, à questão ambiental e às políticas de gabinete que sem dúvida marcaram tanto a estagnação das lutas sociais quanto o processo político que desembocou neste enorme retrocesso em que estamos nos afogando com o golpe e o governo ilegítimo de Temer. Também é claro a qualquer leitor seu apoio incondicional às políticas que geraram avanços sociais, as quais nem o mais ferrenho opositor pode questionar. Ao senhor, como sempre, meus mais sinceros respeitos.
    Dito isto, não posso evitar, no entanto, um aspecto pessoal meu, o qual não conseguiria esconder e que sempre me conduz a questionamentos às suas posições: recuso veementemente o conceito de esperança ao qual o senhor defende. Paradoxalmente, devo isto em parte ao senhor. Não sei se devo agradecer-lhe por isto, mas seus textos, repletos de referências respeitosas a outros sistemas religiosos, bem como as referências religiosas/políticas endossadas pelo senhor (refiro-me, por exemplo, a figuras como Mujica e Tereza de Calcutá) fizeram-me algo muito mais profundo do que o simples ascetismo ou ateísmo.
    Aprendi o quanto sou pequeno, o quanto o Divino é distante de nossas construções mentais, o quanto a verdade se impõe sobre discursos e o quanto se faz necessário nos despirmos de nosso ego, de nossa construção interna, para atingirmos o mínimo da pureza infantil evocada nos evangelhos para que se possa sentir-se de alguma forma, tocado pelo Desconhecido, ao qual insistimos em nomear, esquematizar e idealizar. Agradeço-lhe por trazer-me referências e neste dia memorial-simbólico, embora despido de esperanças e cada vez mais com a obrigação moral de desqualificar qualquer desejo pessoal, testemunho-lhe – sem desejar que o faça nem aconselhar pretensiosamente nada – o quanto sou capaz de acalmar meu espírito ao ver meus peixinhos no aquário, ao receber um bom dia de um desconhecido, ao encontrar uma semente de fruta brotando em meu jardim, ao ouvir uma bela música, ao receber bons olhares e doar bons olhares, ao ver a recuperação de uma vida doente, ao ver uma boa morte – tranquila e serena – ao invés de uma morte feita, ao ver a vida sob qualquer forma gerando vida, ao saber que alguém arrumou um emprego, saiu de algum sofrimento, ao ver minha cachorrinha criando seus filhotes… Hoje me senti agraciado ao reencontrar meu gato que desapareceu pela manhã. Parece pouco, mas já tive animais mortos como forma de retaliação por resistir a agressões diuturnamente recebidas por parte dos “agentes de segurança” do PCC em meu bairro. Não faz ideia da culpa que isto me causa, saber que mataram uma vida como vingança ou amedrontamento. Estas coisas nos consomem, nos fazendo pensar que tudo pode piorar no mundo em que estamos. Vivemos todos em estado de tensão constante. Uma tensão cotidiana. Sempre que algo acontece – e sempre acontece – não é a esperança que me salva. É a certeza de que o belo sempre está a minha volta, pedindo pra ser contemplado, oferecendo-se como alento. O bem já está feito. O mal é que tem de se reinventar para tomar todos os espaços em nossos corações. Não espero mudança quanto a isto. Mas agradeço a cada segundo de beleza, de bondade, de calma, de força e de tesão pela vida. É certo que um dia, seremos os próximos a vivenciar uma grande tragédia (perdi um ente querido, vítima de atropelamento enquanto trabalhava). É certo que o medo por nós e pelos nossos nos toma constantemente. Mas, é certo, o belo se impõe sempre como contraponto à angústia.
    Com a descrença ativa de Tereza de Calcutá e a Frugalidade majestosa de Mujica me despeço, agradecendo, claro, por tua militância, por tua sabedoria e paciência proverbiais.
    Um forte abraço.

    • 25/12/2016 9:40

      Edgar, é importante distingpuir a esperança como virtude entre outras e o princípio esperança como o estudou Ernst Bloch. O princípio esperança é o motor interior que nos mantem vivos e nos faz lutar e seguir adiante. Quando afogamos este princípio que é maior que nossos desejos e esperanças cotidianas, estamos a um passo do desespero e em alguns, do suicídio; porque não há mais nenhum sentido em continuar vivendo. boff

      • Edgar Rocha permalink
        25/12/2016 15:37

        Sem querer polemizar e, inevitavelmente o fazendo, o que me impede do suicídio, sr. Boff, é a certeza da concretude do belo. A esperança anda sempre por um fio e desta fragilidade se alimenta a indústria da desilusão e do escapismo. A certeza de que a vida – a vida real, não a artificial – é infinitamente poderosa e capaz de nos tocar com a força da beleza, nos faz cuidar e preservar o belo, livrando-nos do sentimentos de autodestruição. Esta é a força que faz nascer de escombros de uma casa destruída, a semente do recomeço, a flor rústica que surge em mio a escombros. Impossível suicidar-se se podemos nos surpreender com o frugal.
        Permita-me mais um testemunho. Fui informado certa vez de que ocorreria um “salve-geral” há uns anos atrás e que este seria devastador. Eu e muitos no bairro temíamos por tudo e ficamos apavorados. Motivado pela certeza da tragédia, liguei pra todos os órgãos possíveis que puderam denunciar, agir, ou prevenir o ataque do crime contra a cidade. Qual foi minha surpresa que, dezenas de outras pessoas haviam feito o mesmo,apesar da leniência de autoridades, digamos, favoráveis ao ataque do PCC. O mesmo fora cancelado graças ao gritos de socorro dos inconformados.
        Com medo de retaliações pela delação, muitos como eu andavam temerosos dias depois. Num dia qualquer de desolação e desgosto pela vida, um pequeno, grupo de vizinhos se ajuntou em torno de minha casa com rostos assombrados, alguns emocionados. Já prevendo algo de muito ruim, me aproximei e então me mostraram um evento que causara uma certa comoção por minutos: “Foi você que fez isto?” peguntou-me uma senhora. Olhei para uma árvore e entre as folhas da copa estava lá uma orquídea que eu havia plantado havia seis anos e que nunca tinha florido. O assombro era causado por aquela enorme sombra rosa, como uma criança, com o corpo voltado para a rua, parecendo nos observar. Foram segundos de oxigenação, de contemplação e todos voltaram mais animadinhos pra casa, alguns retornando vez por outra pra olhar de novo e mostrar a terceiros. No momento não dei muito valor. Só depois percebi que havia me esquecido também do medo.
        Ganhei mudas de outras orquídeas. Pediam-me pra plantar mais e mais. Tem gente que entra no quintal pra fotografar. Noivas pedem isto. É muito engraçado. Num bairro tão violento, barulhento, feio mesmo, as pessoas param pra olhar as flores, conversam, retomam o ar e vão pra casa. Isto não é demais? Não é realmente revolucionário??? É bonito, sem dúvida.
        Meus respeitos.

      • 26/12/2016 22:35

        Edgar,leia meu proximo artigo que sairá no JB online na proxima semana e depois neste blog “Esperança contra toda esperança”. Ai terá alguma resposta ao que pede. lboff

  10. Luiz Müller permalink
    24/12/2016 18:50

    Republicou isso em Luíz Müller Blog.

  11. Jorge Márcio Beraldo permalink
    28/12/2016 15:14

    Fico as vezes a pensar que a situação é bem pior porque vemos tanta gente que se posiciona como esclarecida, crítica e capaz e pensar as realidades de forma separadas e intrinsecamente ligadas, repetindo os mesmos discursos da mídia golpista. Quer dizer, enquanto esse povo que se acha esclarecido não for pisoteado pelas políticas desse governo golpista, não vão abandonar esse discurso de que estamos na merda porque o PT assaltou o país. Eu fico com medo porque só mesmo quando a elite entreguista acabar de entregar todas nossas riquezas e o país tornar-se incapaz de reação porque nosso orçamento vai estar todo destinado aos banqueiros, esses idiotas vão descobrir que são idiotas e agiram o tempo como idiotas.

    • Amaurih permalink
      29/12/2016 7:09

      Eu desconfio de qualquer pessoa que se pensa esclarecida e que credita a divulgação dos fatos a uma suposta “mídia golpista”… Só o tempo dirá quem está sendo idiota…

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