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A democracia diante do abismo

12/10/2018

Há momentos na vida em que temos que escolher de que lado politicamente nos colocamos.
Ou do lado da democracia que respeita as liberdades, permite a manifestação dos cidadãos e se entende dentro de um Estado democrático de direito.
Ou do lado de quem a nega, exalta a ditadura militar de 1964, magnifica seus torturadores, que, segundo ele, nem deviam torturar, mas simplesmente fuzilar, a começar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que abomina e prega a repressão aos homoafetivos, que desmoraliza os quilombolas que, segudo ele, nem servem para reproduzir, que despreza os indígenas,que patrocina uma arma na mão de cada brasileiro e que publicamente humilha a própria filha, fruto de uma “fraquejada” e seria incapaz de amar um filho homoafetivo.
Esse, um ex-capitão aposentado, sem qualquer experiência de administração pública que confessa que nada entende de economia, de saúde e de educação, pois para isso existem os respectivos ministros….Nem se dá conta de que é missão do Presidente definir as políticas públicas, mostrar um rumo para a nação e entregar as execuções a ministros competentes.
Tal candidato majortiário nas eleições do primeiro turno e no segundo igualmente mostrando larga vantagem sobre seu concorrente, mostra claro viés nazifascista, seja na linguagem, seja nos gestos, seja na brutalidade de suas expressões.
É uma vergonha para o país a inconsciência da maioria dos partidos que não vencendo nas eleições, o apoiam explicitamente ou deixaram seus seguidores livres para escolher o canditado. Pensam na parte que é o partido e não no todo que é o Brasil.
Essa neutralidade, neste momento histórico de grande risco para a democracia, se revela irresponsável. O ressentimento e o ódio que tomou conta de boa parte da sociedade, são os piores conselheiros para a convivência de uma sociedade minimamente civilizada.
Não vale culpar o povo, dizendo que é ignorante mas que, afinal, foi sua opção. A ignorância e falta de consciência é fruto da vontade das velhas oligarquias e do capitalismo selvagem que grassa entre nós. Sempre quiseram um povo ignorante e sem consciência de seus direitos, para melhor manipulá-lo e garantir seus privilégios. Não temem um pobre mas têm pavor de um pobre conscientizado de sua cidadania e que reclama seus direitos.
Estes, como mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues, estudando as relações entre as oligarquias e o povo, sempre conspiraram contra ele, o humilharam e lhe negaram direitos e jamais tiveram um projeto político para ele.
O ex-capitão de caris fascista se alinha nesta tradição. Chegou até a copiar o lema de Hitler, “Deutschland über alles” traduzindo, “Brasil acima de tudo”. Em seu estilo rude, fora da civilidade democrática, promete combater a violência reinante com mais violência ainda, sem se dar conta de que as vítimas primeiras serão os pobres, os negros e negras, os que têm outra opção sexual. Só na perspectiva de sua vitória, seus seguidores estão antecipando a violência, chegando até a assassinar um famoso mestre de capoeira na Bahia e marcar uma suástica, com faca, na perna de uma jovem mulher no Rio Grande do Sul.
No momento atual, conta mais uma frente ampla do que os partidos, em defesa da democracia ameaçada e dos direitos fundamentais negados. Vivemos tempos de urgência. As diferenças devem ser relativizadas face a um perigo que pode ameaçar o destino de nosso país e afetar de forma negativa os países vizinhos, cujas democracias são também de baixa intensidade. O ascenso direitista no mundo, seja na Europa e nos EUA sairia fortalecido e representaria uma regresso a tempos sombrios vividos na Europa sob o tacão de Hitler e de Mussolini.
Hoje sabemos que eles irromperam com um discurso semelhante ao candidato fascistóide: prometendo segurança e repressão a todos os que se lhes opunham, muitos deles assassinados ou enviados às câmaras de extermínio. Raros conseguiram refugiar-se no exílio, como Einstein, Freud, Brecht, Arendt e outros e outras. Não queremos que essa história se repita em nosso país.
Por isso, vale respeitar a liberdade do voto, mas que seja consciente e que meça seu significado para si mesmo, para seus familiares e para o futuro de nosso país.
Não podemos passar aos olhos dos estrangeiros que se preocupam enormemente com as nossas eleições, como uma nação pária que regride a tempos e à políticas malévolas que todos queremos repetir:”Nunca mais”.

Leonardo Boff é teólogo, filosofo e escritor.

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8 Comentários leave one →
  1. JOAO LUIZ DE CASTRO permalink
    12/10/2018 8:45

    eu ja escolhi de que lado estou: do lado certo, da verdade, da liberdade, do lado do do povo. HADDAD 13

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  2. AMAURI DO AMARAL AMARAL CAMPOS permalink
    12/10/2018 9:47

    A política está realmente mudando, e está favorecendo muito mais as pessoas autênticas e sinceras do que as falsas que se deixam orientar em seus discursos, pelo “politicamente correto”, mas agem de maneira diversa. Essa falsidade ideológica é que nos trouxe ao atual quadro eleitoral. A esquerda é a criadora da situação que se avizinha. Se temos os dois polos extremos disputando as eleições isso é de responsabilidade exclusiva do PT, partido dito dos “trabalhadores”. O adversário disse tudo o que os anteriores nunca disseram e que suas oposições nunca usaram em seus discursos, talvez porque esses outros partidos, embora, talvez nem por vontade própria, seguiram padrões éticos ignorados por quem redige um texto como este, por exemplo, como o de não fazer “campanha negativa”, nem Lula, nem Dilma, nem FHC, admitiram algum dia que não entendiam de economia, educação, segurança, física quântica, uso do “control ‘c’/ control ‘v'”, mas isso não foi motivo de campanha eleitoreira que os desqualificassem. A esquerda potencializou Trump, da mesma maneira que potencializou o Capitão, e por culpa da teimosia, ganância, e ignorância de um líder, condenado e preso por corrupção, jogou o país nessa encruzilhada… Agora vão ter que fazer o diabo para reverter o resultado nefasto do que eles mesmos plantaram. Bolsonaro é cria da esquerda…

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    • 12/10/2018 18:24

      Amauri, o Bolsonaro ficaria feliz em ler seu texto. Não me admiraria se vc acabe votando nele, pois usa um diagnóstico equivocado da real stuação do Brasil cuja complexidade é maior do que pensa. LBoff

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    • ruy campos permalink
      13/10/2018 11:19

      Exatamente como comenta,salientando que o tal lulala,apoia a permanência do PT eternamente ou pretendia!!! cadeia nestes nefastos!!!

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    • Aristóteles Barros da Silva permalink
      14/10/2018 12:13

      Senhor Amauri: me permita dizer que nada justifica votar em um candidato sem nenhuma proposta, quer seja para educação ou saúde ou segurança. Nada justifica dar razão e apoiar candidato que só prega violência – prender, torturar, matar. Mesmo que o PT tenha errado em suas tentativas de unir o povo em torno de uma só bandeira – Brasil -, não podemos nos dar o disparate de apoiar quem nada nos traz, a não ser servir capim a nordestinos, chibata a mulheres e cemitério a índios e quilombolas. Isto posto, respeito mas, não concordo com seu desabafo.

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      • AMAURI DO AMARAL AMARAL CAMPOS permalink
        17/10/2018 18:44

        Não sei em que sociedade vive, mas sei que muito do que o senhor se baseia para argumentar faz parte da campanha negativa comum a espertalhões que se infiltram na política para levar vantagens e comum às propagandas da esquerda que prometeu o politicamente correto, mas não cumpriu. Se o senhor não tem condições de analisar as propostas do adversário eu compreendo, mas essas “pregações” a que o senhor se refere, faz parte do corolário de distorções e exageros comuns a pessoas sem a menor ética. Pregar a segurança, cada um prega com o que o que conhece, e o que o senhor entende como pregação de violência a meu ver é a pregação de uma alternativa de segurança que vai no sentido contrário de uma política de segurança permissiva aos bandidos, que como estamos vendo não deu certo.

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  3. 13/10/2018 19:55

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Mais um bom texto para sua reflexão, compartilhado da página do L. Boff:
    “Há momentos na vida em que temos que escolher de que lado politicamente nos colocamos.
    Ou do lado da democracia que respeita as liberdades, permite a manifestação dos cidadãos e se entende dentro de um Estado democrático de direito.
    Ou do lado de quem a nega, exalta a ditadura militar de 1964, magnifica seus torturadores, que, segundo ele, nem deviam torturar, mas simplesmente fuzilar, a começar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que abomina e prega a repressão aos homoafetivos, que desmoraliza os quilombolas que, segundo ele, nem servem para reproduzir, que despreza os indígenas,que patrocina uma arma na mão de cada brasileiro e que publicamente humilha a própria filha, fruto de uma “fraquejada” e seria incapaz de amar um filho homoafetivo.
    Esse, um ex-capitão aposentado, sem qualquer experiência de administração pública que confessa que nada entende de economia, de saúde e de educação, pois para isso existem os respectivos ministros….Nem se dá conta de que é missão do Presidente definir as políticas públicas, mostrar um rumo para a nação e entregar as execuções a ministros competentes.
    Tal candidato majoritário nas eleições do primeiro turno e no segundo igualmente mostrando larga vantagem sobre seu concorrente, mostra claro viés nazifascista, seja na linguagem, seja nos gestos, seja na brutalidade de suas expressões.
    É uma vergonha para o país a inconsciência da maioria dos partidos que não vencendo nas eleições, o apoiam explicitamente ou deixaram seus seguidores livres para escolher o candidato. Pensam na parte que é o partido e não no todo que é o Brasil.”
    (Continua; clique no linque para ler a íntegra do texto)

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