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Quando a sexualidade era celebrada na Igreja

12/02/2020

É ideia comum de que a moral católica no tocante à sexualidade é rigorista e até preconceituosa. Isso se deve, em grande parte, à influência de Santo Agostinho que interpretava a transmissão do pecado original que macula toda a existência humana, através da relação sexual. Todos os que nascem dessa relação são portadores desse pecado. Por causa desta interpretação que se tornou doutrina dominante, se estabeleceu uma relação negativa e até preconceituosa entre sexo e pecado.

Entretanto, nem sempre foi assim. Dentro da mesma Igreja, há tradições e doutrinas que veem no prazer e na sexualidade uma manifestação da criação boa de Deus, uma centelha do Divino e uma participação na natureza mesma de Deus. Esta linha se liga à tradição bíblica que vê com naturalidade e até com regozijo o amor entre um homem e uma mulher. Com forte carga erótica, o livro do Cântico dos Cânticos celebra o jogo do amor, a beleza dos corpos dos amantes, dos seios, dos lábios e dos beijos. Curiosamente neste livro bíblico nunca aparece o nome de Deus. Mesmo sem nomear Deus, este livro foi recolhido no Cânon dos livros tidos como inspirados. Nem precisava referir-se a Deus, pois São João nos revela que a verdadeira natureza de Deus é amor (1 Jo 4,16). Então Deus estava aí.

A base teológica para esta visão positiva radica na fé na encarnação do Filho de Deus. Ele assumiu tudo o que é humano, portanto, também a sexualidade, a libido e o imaginário ligado a ela e o amor. Daí dizer-se que não existe mais nada de profano em si. Tudo foi tocado e transfigurado pela realidade divina, feita humana. Pela encarnação, a sexualidade faz parte do Filho de Deus. A sexualidade aqui não deve ser reduzida à genitalidade, mas significa todo o envolvimento afetivo e as trocas amorosas, com as características próprias do feminino e respectivamente do masculino.

Tal assunção trouxe à sexualidade humana uma dimensão sagrada. Depois da encarnação de Deus, ela não pode mais constituir um tabu, um pesadelo ou um fator que transmite a desgraça do pecado original. É uma dimensão privilegiada na qual o ser humano experimenta a força vulcânica do desejo, a ternura, o amor e o prazer. Tudo isso pode fundar uma experiência prazerosa de Deus. O próprio Deus se revela nas vidas dos seres humanos diferentes e desejantes. Deste encontro nasce o maior fruto da cosmogênese que é a vida humana .

Para ilustrar esta tradição, cabe referir aqui uma manifestação que perdurou na Igreja romano-católica por mais de mil anos, conhecida pelo nome de “risus paschalis”, o “riso pascal”. Ela significava a simbolização do prazer genital-sexual no espaço sagrado, na celebração da maior festa cristã, a da Páscoa.

Trata-se do seguinte fato, estudado com grande erudição por uma teóloga italiana Maria Caterina Jacobelli (Il risus paschalis e il fondamento teologico del piacere sessuale, Brescia 2004): Para ressaltar a explosão de alegria da Páscoa em contraposição à tristeza da Quaresma, o sacerdote na missa da manhã de Páscoa devia suscitar o riso no povo. E fazia-o por todos os meios, mas sobretudo recorrendo à simbólica sexual. Contava piadas picantes, usava expressões eróticas e encenava gestos que insinuavam relações sexuais. E o povo ria que ria. Traduzia destarte o caráter inocente e decente do riso pascal.

Esse costume é atestado por fontes históricas já em 852 em Reims na França e se estendeu por todo o Norte da Europa, pela Itália e pela Espanha, até 1911 perto de Frankfurt na Alemanha. O celebrante assumia a cultura dos fiéis em sua forma popularesca e para nós, que perdemos a naturalidade do sexo, parece-nos até obscena. O próprio teólogo Joseph Ratzinger, depois Papa, em um de seus escritos se refere, embora criticamente, ao risus pascalis para expressar a vida nova inaugurada pela Ressurreição. Afirmava ainda que somente a partir da crença na Ressurreição voltou verdadeiramente o sorriso na humanidade e não apenas o riso. O sorriso desanuviado e livre, manifestado no “riso pascal” sexual expressaria a alegria que a ressurreição trouxe ao mundo.

Podemos discutir o método pouco adequado para suscitar tal riso. Mas ele revela na Igreja uma outra postura, positiva e não condenatoria da sexualidade. Aventar tais fatos não significa querer escandalizar os fiéis ou questionar a doutrina da Igreja. Mas ela nos obriga a relativizar a rigidez oficial face à sexualidade, acentuada de modo especial nos últimos Papas  mas superada no documento do Papa Francisco Amoris laetitia cujo título diz tudo: “a alegria do amor”. No fundo se trata de devolver sentido e alegria à vida humana, chamada à mais vida e não só à renúncia e ao sacrifício. E por que não expressá-la na linguagem da sexualidade criada e querida por Deus?

Há que se reconhecer que esta visão mais natural predomina na vida concreta dos cristãos. Estes obedecem mais à lógica dos reclamos profundos da existência humana sexuada e perpassada pelo desejo do que às doutrinas frias da moral e da ética cristãs de cariz  rigorista. A alegria da vida que triunfa definitivamente pela ressurreição, encontrou no risus pascalis uma expressão da sexualidade redimida, inocente, prazerosa e sagrada. Por que não gaiamente recordá-la?

Leonardo Boff escreveu com Rose-Marie Muraro Feminino e Masculino:uma nova consciência para o encontro das diferenças, Record 2003.

 

12 Comentários leave one →
  1. Jorge Souza permalink
    12/02/2020 0:32

    Ótimo tema e bem abordado por ti, mestre L. Boff. Fiz uma primeira leitura rápida. Voltarei a ler o artigo com calma para absorver melhor as ideias.
    Obrigado por nos ajudar a compreender os assuntos teológicos, filosoficos e antropológicos.
    Fraterno abraço!

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  2. Nealtina permalink
    12/02/2020 8:09

    Belíssimo texto. Grata pela reflexão e pela desmistificação. Realmente, como poderia o Deus que viu que tudo era BOM, permitir que algo dessa beleza fosse razão de maldade? TUDO o que Deus criou é BOM e concorre para o BEM!

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  3. José Luiz Maranhão permalink
    12/02/2020 11:23

    Um cristão triste, como alguém já disse, é um triste cristão.

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  4. Marízia costa Carmo Lippi permalink
    12/02/2020 12:57

    Muito oportuno e interessante o presente artigo! A vivência da sexualidade humana difere da dos irracionais, nestes ela ocorre em períodos determinados, com a finalidade da preservação da espécie, períodos de cio,assim chamados. Entre os humanos há uma vivência elevada que sublima este relacionamento. Há também uma prática não elevada que degrada este ato, degradando os parceiros e que muitas vezes ocasionam a destruição de uma vida humana pelo aborto O ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, deveria se empenhar em tornar dignos todos os aspectos de sua existência : conjugal, social, política, profissional, etc. Acabo de ouvir do Cardeal Arcebispo de São Paulo-SP.,que tem caído, de modo expressivo na Igreja Católica, o Sacramento do Matrimônio. A mim me parece que a humanidade se distancia da vivência da espiritualidade, para sua infelicidade. Alguém alegou as despesas para a solenidade do matrimônio. Frei Almir Ribeiro Guimarães, sugeriu que seria oportuno o matrimônio durante uma Santa Missa, dentro da simplicidade.

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  5. Rosana de Souza Gomes permalink
    12/02/2020 13:15

    Este tema tem me sido muito caro ultimamente. Li seu livro com Rose Marie Muraro e recentemente o livro de Uta-Ramke Heinemann, Eunucos em nome de Deus.
    Penso que muto da postura da Igreja e seus movimentos reprimem a sexualidade humana, atrapalham seu amadurecimento, a responsabilidade das pessoas e reprimem muito mais fortemente as mulheres. Peso que muitas de nós carregamos por muito tempo.
    Promove também um descompasso entre homens e mulheres.
    Há muito o que superarmos.

    Obrigada por tocar nesse assunto.

    Gostaria que abordasse o seu entendimento e o da Igreja com relação ao matrimônio, sua indissolubilidade, adultério, etc. O que de fato se pode extrair das falas de Jesus.

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  6. Jorge Souza permalink
    12/02/2020 16:54

    Mestre L. Boff,

    O teu artigo, como sempre, ficou ótimo e muito me surpreendeu.
    Não sabia que, no passado e no contexto da Páscoa, a sexualidade era celebrada religiosamente de forma tão natural, positiva e até engraçada (lúdica) na Igreja.
    Puxa vida! Como a compreensão da sexualidade pôde, de um tempo pra outro, por questões de interpretação, escolha de um grupo majoritário e tradição, cambiar-se de sagrada a profana, de limpa para suja, de fonte de beleza (graça) para fonte de pecado?
    A Igreja Católica deveria ter optado pelo “risus paschalis”. Seria maravilhoso se este fosse elevado à categoria de doutrina dominante. Dessa forma, muitos tabus e outros males presentes hoje em nossa tradição ocidental teriam sido (penso), no mínimo, minimizados.
    Quando estava lendo pela segunda vez teu artigo, pensei nos inúmeros sacrifícios e penitências rigorosas que fizeram ao longo da história do cristianismo religiosos/as e o povo em geral motivados pela visão pecaminosa e negativa da sexualidade mais o medo de ir para o inferno. Lembrei-me também de Jorge Amado, nosso grande romancista aqui da Bahia. Suas obras foram duramente criticadas e rejeitadas por parte de alguns (leitores seus ou não) que tinham (ou ainda têm) essa visão pecaminosa e pessimista da sexualidade. Mas eu, particularmente, gosto da sua obra porque Amado trata da sexualidade com naturalidade e “obedece mais à lógica dos reclamos profundos” da vida do povo em todas as suas dimensões.
    Parabéns pelo artigo!
    Fraterno abraço!

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    • 14/02/2020 1:07

      Jorge, precisamos sim resgatar o caráter natural da sexualidade, pois Deus a criou e a ssumiu pela encarnação. Nada é meramente profano. Foi tocado pelo Divino. Eu acho que a Igreja oficial não desenvolveu ainda um ideal para a sexualidade. Imagine que eu peguei ainda o tempo, nas aulas de moral, que em matéria do sexto mandamento, tudo é grave, tudo é pecado mortal. Só mentes doentias podiam comunicar uma doutrina que nada tem a ver com o mistério da criação boa de Deus. E quantos se angustiaram e continuam se angustiando com tais doutrinas rigoristas (que o diga a minista Delamares). O cristianismo não pode ser um pesadelo para a humanidade, mas uma realidade boa e produtora de felicidade. abraço Lboff

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  7. Thiago Otávio permalink
    12/02/2020 17:52

    Acho interessante essa questão da sexualidade, porém, tendo em vista a grande abundância e facildade de acesso à materiais pornográficos, qual seria a medida saudável para utilização? Seria a masturbação algo prejudicial em grande quantidade? ”Tudo que é saudável pode tornar-se doente”, o que seria o doente nesse caso?
    Gostaria de saber quando seria o próximo evento/palestra no Rio.

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  8. NARA ZANOLI permalink
    13/02/2020 7:45

    sempre interessante e cheio de esperanca para um cristiamismo verdadeiro

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  9. 13/02/2020 8:16

    O sexo sem promiscuidade é divinal e responsável pela perpetuação da espécie. Como crescer e multiplicar sem sexo? Nada existe sem a criação de Deus. O desvirtuamento é humano e perdoável.

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  10. Hilton permalink
    13/02/2020 10:10

    Pena não ter lido isso na adolescência…:-)

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  11. Durval Santos permalink
    13/02/2020 10:27

    Texto profundamente lúcido, esclarecedor e reflexivo.

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